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Cartas ao Acaso

Por Reika Zani •
28.2.18


Ela


Eu só queria dizer que ta tudo bem por aqui, eu to conseguindo pegar no sono e não sinto mais tanto medo de ficar sozinha no meu quarto, mas tenho que assumir que era bem mais fácil quando você estava do meu lado, me acalmando e me aninhando no teu corpo.
Os dias estão passando rápido, eu nem percebo as horas correrem, sabe? Meu corpo segue fazendo movimentos rotineiros sem que eu note. É fato consumado, o meu coração acelera como se o mundo fosse acabar, no instante que escuto a chave de alguém balançar na frente do portão lá de casa. Isso me corrói e consome.
Queria que você soubesse que todos os dias eu te espero ao entrar no banho quente, e ao deitar na cama fria, queria deixar isso para trás mas não consigo fazer de ti apenas uma pessoa que conheci em algum momento e pronto, quero fazer você presente, quero você presente! Ser capaz de sentir o ar sair das suas narinas enquanto me beija, como se fosse o nosso último beijo, poder entrelaçar os seus dedos nos meus enquanto diz que me ama, minha vontade é ter você aqui até que chegue a manhã seguinte e não tenhamos vontade de levantar e preparar o café.

Quero que tu sejas meu,
Na mesma proporção que um dia eu fui sua. 
Quero que tu me vejas como te vejo e invejo quem te roubas o sorriso.
Vem deita aqui, 
Deixa eu percorrer as linhas do teu corpo como um viajante percorre o mapa do seu próximo destino.
Deixa eu te completar
E contemplar, 
Mesmo que seja por algumas horas,
Horas feitas de ti,
Feitas de nós.
NÓS.

Ele

Eu escrevo todo dia com a intenção dela responder, mas parece que nem os correios que antes era nossa ponte de contato gostariam de ter eu e você na mesma linha de correspondência. Meu quarto que foi testemunha de tudo o que você fez com a minha sanidade, hoje é cinza e fede a desesperança. Gostaria que fosse fácil essa tal coisa de separação, mas não é.
Eu ainda escrevo, eu leio, eu vivo cada palavra que você me disse antes disso tudo, eu percebo o quanto eu fui negligente, mas sempre enxergamos isso quando acaba e é do ser humano ser pálido e cético quando surge algo estonteante e que pode mudar a sua vida, no meu caso, era você. Sinto saudade do teu café amargo com açúcar mascavo de qualidade duvidosa, sinto falta da sua preferência por água saída diretamente do local mais quente do mundo e por ironia amava deitar do lado mais gelado da cama, perto da parede de cor branca e enfeitada de mandalas.
Lembro também das tuas surpresas e sustos quando ouvia a chave girando a fechadura do nosso portão enferrujado e cercado por samambaias, eu as odiava, as samambaias, não as tuas peripécias com o meu fraco em sustos. Eu ainda sonho com nossas noites de descanso, onde a sua cabeça descansava sobre o meu peito, enquanto eu sentia sua respiração calma e quente recorrendo sobre o meu coração. Você reclamava de como eu era poético, certinho no português, mas se derretia quando declamava meus versos de “burguês”, ricos em proparoxítonas, palavra que você odeia e prefere “reciprocidade”.
Eu queria ser teu, como você já foi minha, mas a confusão nos assola e nos prende em ciclos sem fim.
Queria muito HORAS de ti somadas com “nós”.
Desculpe a melancolia,
Mas o que sobrou foram MILÉSIMOS de nós
Que não enrolaram
Em minutos a sós com a saudade.


Texto por: Zani e Duarte!


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