Poematizei #6

By Reika Zani - 31.8.17


No último poematizei trouxemos um poema do Carlos Drummond de Andrade e seguiremos durante algumas semanas com seus poemas, o de hoje é um de seus grandes sucessos e pertence ao livro A Rosa do Povo


Nosso Tempo 

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

Um poema forte que pode servir para os dias atuais, Drummond escreveu o livro A Rosa do Povo entre os anos de 1943 à 1945 mal sabia ele que em 2017 as coisas estariam assim. 


Que a poesia se faça mais presente no nosso dia-a-dia! 




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